4.23 Graduation
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Os dias são tao diferentes, e são todos iguais. Abro os olhos. Abro a janela. A porta, e um sorriso meio torto pra dar bom dia pro cachorro. Abro o jornal. Mais mortes, mais políticos corruptos condenados - ou quase - por seus absurdos que parecem tao normais aos nossos olhos cansados (não, não é o sono pesado de mais uma noite mal dormida; é o cansaço da leitura de noticia tao velhamente nova)… Hoje é dez de maio, Mais um dia, penso alto. Em dez de maio de 1994, Mandela assumia a presidência da Africa do Sul. Anos antes, ainda é dez de maio e o regime nazista alemão queima 20 mil exemplares que estavam na lista negra. Mas hoje é dez de maio e não há sinal de que daremos algum passo importante na conquista dos nossos direitos, ou de que algum exercito esteja marchando, pronto para a luta. Hoje é dez de maio e a sutileza desse dia, pra mim, reside nos detalhes.
Meu dez de maio é saudoso (como muitos de meus dias), é miúdo, é dolorido. Hoje é o dia da vontade de regresso à verdadeira morada da alma… É que a gente não pode gritar aos quatro cantos, Sinto tua dor, Sinto tua falta, Vem menino, Eu volto a te cuidar… Não. A gente precisa viver em pé atrás, em dor que caiba no espaço vazio de uma cama de casal, em conformismo barato, Pelo menos eu continuo vivendo.
Mas não te escrevo por isso. Afinal, hoje ainda é dez de maio e eu gostaria que fosse também o dia em que conquistei teu perdão. Ora! Pensará - e eu sei que pensará - Mas já disse não me escrevas mais, Não quero te perdoar, tchau, tchau. Eu disse que sou muito senhora de minha vontade e bastante amiga de insistir, então saiba que se essa é a sexagésima sétima (ou oitava?) carta, continuarei a escrever teu endereço nesses envelopes sujos e velhos até que me perca nas contas - ou até receber uma resposta tua, quem sabe.
Não existe ninguém que me conheça nessa cidade, estou sozinha, e o frio me lembra você. Eu tive de ir embora, sei que não parece logico ou necessário a você, mas juro que foi. Se não fosse, não viria. Não diria adeus em lágrimas, não soltaria tuas mãos, Sentirei tua falta a cada batida do coração, Não se vá, você repetia, e eu tive de entrar naquele avião.
A verdade é que Caio Fernando Abreu só me deu a receita - sim, eu voltei a ler aquilo que você considera auto ajuda barata dos modernos em rede sociais - para atravessar agosto, e esqueceu que maio ainda é doloroso e se arrasta enquanto termino essa carta e o café fica pronto. Chega de rodeios, aqui está, dura e breve: Eu estou arrependida. Peço perdão. Não sonhei em acordar com o cachorro e preparar café para um homem que não amo. Sonhei em mudar o mundo com você, em ser chamada de revolucionária babaca enquanto nos divertíamos em alguma passeata em frente ao Senado, Vai que da certo, você diria. Mas é que a vida cobra. E a gente paga. Acabei como mais uma daquelas mulheres modernas e ácidas, que esquecem que sonhar com o amor não precisa ser vergonha pra ninguém. Entendeu? Pronto, falei. E queria dizer isso tudo olhando em teus olhos, me perdendo nas ondas que me arrastam pro teu mundo de dentro, mas Dez de Maio me tirou o cotidiano de você, de nós dois, de mim, e de quem eu gostava tanto de ser. Me perdoa. Perdoa-me.
Ps: O café estava quente, por isso a mancha. Espero que ainda consigas ler.Sempre sempre sua.
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